A água nunca permanece. Move-se, infiltra-se, desaparece e regressa, transportando consigo as marcas do tempo, das comunidades e das paisagens que atravessa.
Águas do Tempo parte da memória hídrica de Odiáxere para construir uma experiência sensorial onde investigação científica, criação artística e património se fundem numa mesma matéria. A partir da análise histórica da evolução dos níveis da água ao longo dos séculos, os dados deixam de ser apenas registo para se tornarem gesto, luz e vibração.
Projeções laser desenham uma cartografia efémera das oscilações da água, revelando ritmos invisíveis que moldaram o território, a agricultura e a vida das comunidades. Em paralelo, uma composição sonora converte essas variações em frequência e ressonância, fazendo emergir uma paisagem acústica onde o passado é escutado como presença.
A performance propõe uma outra forma de ler o território: não como uma superfície fixa, mas como um organismo em permanente transformação, onde cada ciclo de abundância ou escassez deixa uma inscrição na memória coletiva. Entre a precisão dos arquivos e a dimensão poética da experiência, a obra convoca o público para uma escuta profunda das relações entre natureza, tempo e cultura.
Num momento em que as alterações climáticas redefinem a nossa relação com a água, Águas do Tempo convida-nos a imaginar novas formas de habitar o futuro, reconhecendo que cada paisagem contém histórias inscritas nos seus fluxos, silêncios e desaparecimentos.
Mais do que uma representação de dados, esta é uma performance sobre aquilo que permanece invisível: os movimentos lentos da terra, a memória da água e a capacidade da arte para tornar sensível aquilo que normalmente escapa ao olhar.
Artistas
Paulina Almeida é artista transdisciplinar, investigadora, curadora e docente. Doutorada em Criação Artística pela Universidade de Aveiro, desenvolve uma prática artística que articula performance, instalação, investigação e processos colaborativos, explorando as relações entre memória, território, ecologias em transformação e participação comunitária. O seu trabalho procura criar experiências onde arte, ciência e património se cruzam, ativando novas formas de percecionar e imaginar o mundo.
Francisca Rocha Gonçalves (Porto, 1978) é artista interdisciplinar e investigadora cuja prática se desenvolve na interseção entre som, ciência e ecologia. Através da escuta como ferramenta de investigação, cria instalações e performances que revelam as dimensões acústicas dos ecossistemas e tornam percetíveis processos naturais frequentemente invisíveis. O seu trabalho explora a relação entre tecnologia, ambiente e consciência ecológica, propondo novas formas de escutar e compreender o mundo vivo.